15 de janeiro de 2015

LITERATURA AFRO-BRASILEIRA, NOVAS DICAS PARA INICIAR O ANO.

Quem acompanha o "Encontros Confabulantes" sabe que vira, mexe e remexe posto dicas de literatura afro-brasileira. À medida que vou adquirindo literaturas compartilho com vocês e essa leva de livros que posto não têm nada de novos, eles foram lançados entre os anos de 2009 e 2011, mas três eu não conhecia e os outros dois estavam na minha lista de desejo. Então aqui estão!!!! Espero que o seu encontro com essas dicas desperte desejos e mais desejos... um bom encontro.
Ah!!!! Não deixe de postar suas impressões para que o compartilhar seja dialógico.

Livro: O Menino Que Comia Lagartos
Texto e Ilustração: Mercè Lopez
Editora: SM

O livro é uma boa ferramenta para quem deseja sensibilizar as crianças do quão é importante o encontro com nossa ancestralidade. Ele é todo recheado de encontros, desde o início, quando Tikorô encontra um lagarto sem cor choramingando no mercado de sua cidade até o final quando ajuda o animal a encontrar sua cor. Ao investigar o porquê dele estar branco descobre que sua cor sumia na medida que suas lembranças iam desaparecendo. O menino, grande caçador de lagartos, sensível a dor do animal, abre mão de sua fama e sai em busca do que há de mais precioso para um ser: sua história, suas memórias. Na busca da cor e entre tantos encontros que levaram Tikorô e o lagarto a se perceberem através da ancestralidade, o menino se encontra e o leitor também. 
Vale ler porque é um convite para conhecer sobre as pessoas responsáveis pelo vivedouro das tradições do povo africano, abrindo um leque de discussão para crianças de diferentes idades. Outro ponto que vale o encontro com essa literatura é, principalmente, porque todo mundo deve ter a oportunidade de encontrar-se com outras culturas, especialmente quando esta cultura é nossa também.

Livro: The Goggle-Eyed Goats
Escritor: Stephen Davies
Ilustração: Christopher Corr
Editora: Andersen Press

O livro é todo em inglês e pouco importa para os que ainda não tem afinidade com a língua, pois suas ilustrações, que de tão vivas têm sabor, cumprem papel fundamental no conto que é curto e de fácil entendimento. As Cabras de Olhos Arregalados, em sua livre tradução, conta a história de um homem, casado com três mulheres, com sete filhos e alguns animais, entre eles cinco cabras que causavam dores de cabeça por comerem tudo que viam pela frente... bem se eu contar mais estraga a história que é atraente e engraçada, rica em detalhes e - puxando para o meu olhar de educadora - dá caldo para trabalhar matemática. Tenho certeza que em qualquer mãos que esse livro, que tem sua narrativa passada em um vilarejo de Timbuktu, vai aguçar curiosidades científicas, encantar e arrancar boas risadas.

Livro: Meu Nome é Pomme
Escritora: Kristien Dieltiens
Ilustração: Stefanie De Graef
Editora: SM

Você sabe como o mundo começou? Pomme sabe, foi quando ela nasceu! Esse foi o desafio do livro: contar de forma poética o caminho do início do mundo para essa menina que é fruto de um encontro que tem sabor de maçã verde e o brilho das estrelas. Além da bela história tem um detalhe que não pode passar despercebido: as estampas. Elas são belas, dão texturas às ilustrações e o melhor de tudo é que, para os educadores, é um belo gancho para trazer a lei 10.639 articulando diferentes disciplinas. Para os pais, tios, mães, amigos que só desejam ler para os pequenos vale pela bela história que conta detalhes do antes, durante e depois do nascimento de uma criança com uma sensibilidade única e, dentro da atmosfera de sensações que a leitura oferece, porque não apresentar para esses pequenos qual a estampa e o sabor que marcou a sua vida. 

Livro: A rainha da Bateria
Escritor: Martinho da Vila
Ilustração: Marcelo d'Salete
Editora: Lazuli Editora

Um livro que dá samba!!! Não poderia ser diferente quando o Martinho da Vila está por perto, devagar e bem devagarinho ele conta um pouco do cotidiano de uma escola de samba, sua importância para comunidade, como é feito a escolha da rainha da bateria, sobre história, sobre música e principalmente sobre o desejo de uma menina. O desejo que a menina tem de sambar e estar mais perto da música, e porque não de seu pai que amava música e ensinou a menina Maria Luisa a amar também. Outra questão importante de debater é o preconceito com o samba que no livro é personificado na mãe de Maria Luisa. Um ótimo livro para se ter por perto e para ensinar as crianças a apreciarem o samba, principalmente porque foi inspirado na música do Paulo Brazão "Deixa Maria Sambar". 


Livro: A Menina Transparente
Escritora: Elisa Lucinda
Ilustração: Graça Lima
Editora: Galerinha Record

 "Nasço dentro da pessoa,
E faço ela olhar diferente
Pra tudo que todos olham,
Mas não notam."

É essa menina que a Elisa Lucinda se propõe a apresentar para você, uma menina que resgata a sensibilidade de cada um de nós e que em algum momento você vai se encontrar com ela... E assim, entre versos e adivinhações a autora faz com que os grandões e pequeninos queiram descobrir quem é essa menina leve, bela e envolvente que ela encontrou... a dica fica nos primeiros verso. Divirta-se .

9 de janeiro de 2015

PALHAÇO BENJAMIM: O CIRCO CHEGOU NA EDUCAÇÃO INFANTIL

Saiba mais:

Circo é um ótimo tema para trabalhar corpo, matemática e etnia, sim etnia e por que não? Para unir isso tudo foi utilizado como ponto de partida o Palhaço Benjamim de Oliveira, o primeiro palhaço negro do Brasil e considerado um dos melhores. Partindo dessas duas informações iniciarmos a semana sondando quais palhaço as crianças conheciam e se já foram ao circo. Percebemos que a maioria não conhecia um circo de perto, mas que muitas conheciam palhaços. Entre patatis e patatas que surgiram aguçamos a curiosidade de conhecer um palhaço novo e muito, mas muito engraçado e importante. A medida que era apresentada uma imagem do Palhaço Benjamim de Oliveira contávamos-lhes sua história. As crianças ouviram atentas enquanto visualizavam as imagens em preto e branco da “nova” personalidade. Após observar as imagens e um livro sobre o palhaço (O Elogio da Bobagem)  convidamos os alunos para fazer um circo grande, então enfeitamos ele com as cores azuis e vermelhas. Fizemos bolinhas de papel crepom, assim trabalhamos as cores sugeridas e ainda por cima desenvolvemos a coordenação motora fina. Findamos o nosso circo e colocamos nele nosso Palhaço Benjamim de Oliveira.


Após, apresentamos alguns vídeos de circo para os alunos e pedimos para que observassem como trabalhavam com o corpo. Lógico que crianças, que tinham entre três e quatro anos, só queriam saber de rir, e rir muito. Findamos a maratona de vídeos e convidamos todos para mexer o corpo também. Colocamos muitos colchonetes no chão e fizemos tudo que os circenses fizeram no vídeo: cambalhotas, pular, rolar, rastejar e se alongar... foi um dia que usamos muito o corpo, trabalhando a coordenação motora ampla, lateralidade e noção espacial e corporal. Para a realização das atividades utilizamos como fundo o cd "Circense" do Egberto Gismonti.




No dia seguinte, recordamos o trabalhado e para rirmos um pouco selecionei duas cenas do filme “O Palhaço” do Selton Mello, depois fizemos a leitura do livro fotografia do filme. Em seguida convidamos os alunos para construírem o rosto do palhaço Benjamim de origami. A dobradura teve intervenção individual devido a dificuldades de dobrar corretamente, mas a construção do rosto e dos enfeites do palhaço ficou por conta da criatividade de cada um.


No quarto dia, após assistirmos um vídeo que falava da vida do palhaço Benjamim, exploramos a matemática. Convidando os alunos para montar o palhaço Benjamim utilizando formas geométricas. Apresentamos para os alunos o quadrado e relembramos o círculo, vimos suas diferenças. Outros pontos que exploramos nessa atividade foram as cores marrom, vermelho e amarelo e percebemos o corpo e suas partes.

 

Para findar a semana de muita palhaçada mostramos o desenho do Charlie Chaplin e percebemos várias cenas de palhaços. Depois convidamos os alunos para, na rodinha, fazerem suas palhaçadas. Alguns tímidos não quiseram, outros mais soltos fizeram todos rirem e para fechar a semana palhacística fizemos um circo com técnica de estêncio e pincel batedor e para trabalhar o conceito de dentro e fora e colocarmos o palhaço Benjamim no local que lhe é de direito: dentro do circo!


Foi uma semana que deixou marcas, primeiramente porque trouxemos uma personalidade negra que desperta nas crianças a belezura do riso e segundo porque vimos um aluno se descobrir palhaço. Mesmo tudo isso ter ocorrido no início do ano quando, no fim do ano, essa criança foi questionada do que seria quando crescer, sem pestanejar respondeu: PALHAÇO!!!!






11 de dezembro de 2014

LITERATURA AFRO-BRASILEIRA, OUTRAS INDICAÇÕES

Aos pouquinhos vou compartilhando minhas aquisições literárias com vocês, mostrando a maravilha de levar para as crianças a nossa cultura de forma positivada e a literatura infantil é uma excelente porta de entrada. Aqui vocês encontram reis, flora, música, dança, religiosidade, resistência... muitos elementos no meio de histórias escritas e ilustradas de forma envolvente. Ressalto que desta vez tem uma indicação de literatura colombiana que singelamente mostra elementos da cultura afro-colombiana. Boa leitura para todos!!!

BENEDITO
História e ilustração: Josias Marinho
Editora: Caramelo

Benedito é uma criança que começa a ganhar cor quando sente a batida do tambor do Congado, em que ele revive a memória de seus ancestrais e se encontra, porque se reconhece. O livro é um convite para conhecermos um pouco mais sobre essa manifestação cultural e religiosa afro-brasileira que uni dança, história, canto e fé.

JACINTO E MARIA JOSÉ
História e ilustração: Dipacho
Editora: Scipione


É a poesia do cotidiano inspirada na amizade de duas crianças, assim o autor colombiano retrata um pouco da sua cultura e nos brinda a conhecer elementos do seu país. Podemos ver a relação que os afro-colombianos construíram com a natureza, a belezura dessa confluência cultural e principalmente a importância dos afro-descendente para construção sócio-cultural da América Latina.

EXU E O MENTIROSO
Recontado por: Rogério Athayde, a partir de um conto yorubá
Ilustradora: Clara Zúñiga
Editora: Pallas

O livro é um excelente pontapé para desconstruirmos a visão maniqueísta que as culturas afro-descendentes sofrem. Todos dizem que Exu é um demônio, só não pararam para questionar o que de fato é o Exu. O livro, inspirado em uma história yorubá que tem um protagonista muito mentiroso desafiado por um rei que ficou cansado de suas mentira. Pois bem, o livro só tem um final feliz porque Exu salva a vida do protagonista e lhe dá uma bela lição para nunca mais contar mentira.
Além de todos os méritos que Athayde deve receber por trazer essa história para crianças mostrando a verdadeira faceta do orixá Exu, não podemos ignorar o fato de que Clara Zúñiga facilitou sua vida, trazendo lindíssimas ilustração em tecido e com todas as páginas emolduradas com elementos simbólicos para a cultura afro. Ou seja, esse livro dá pano para manga!!!!!

QUANDO A ESCRAVA ESPERANÇA GARCIA ESCREVEU UMA CARTA
Escritora: Sonia Rosa
Ilustradora: Luciana Justiniani Hees
Editora: Pallas

Um livro infantil que conta uma história real, a de Esperança Garcia, mulher escravizada que resolve escrever uma carta para o governador reclamando dos maus tratos sofridos. Uma carta que é documento histórico e que se tornou a primeira petição pública brasileira. O livro com ilustrações que emocionam e faz você viver cada linha dessa história que Sonia Rosa teve a belíssima ideia de compartilhar com as crianças, mostrando um mulher-negra-guerreira lutando pela sua liberdade, reforçando as diversas ações de luta contra escravidão. O livro aproxima as crianças de documentos históricos e coloca de forma sensível a violência simbólica das separações.

 

NANA & NILO
(QUE JOGO É ESSE? e APRENDENDO A DIVIDIR)
Escritor: Renato Noguera
Ilustrador: Sandro Lopes
Editora: Hexis
Página do livro: http://www.nanaenilo.com.br/

Esses dois livros contam a história de um casal de gêmeos que estão crescendo e aprendendo a lidar com sentimentos que vão desde dividir um brinquedo ao perder um jogo. Mas toda as dificuldades ficam simples para esses pequenos com a ajuda de Mulemba, uma figueira africana mágica. A cada angústia as crianças são levadas a uma viagem à ancestralidade delas, bem no coração das infâncias africanas e lá encontram saberes que dialogam com suas dúvidas e fazem com que voltem com aprendizados singulares que ressignificam suas relações.
Além da história ser bem legal o livro é uma excelente ferramenta de alfabetização, pois é todo em caixa alta e para os professores que gostam de dialogar com todas as áreas do conhecimentos eles dão um bom projeto.



27 de novembro de 2014

O GOTEJAR DE OMBELA


Nesse ano foi lançado o livro Ombela, a origem das chuvas do grande escritor angolano Ondjaki e quando me deparei com ele em uma feira de livro não resisti e comprei, pois o desejo de usá-lo em uma atividade com as crianças foi tão grande que a prática emergiu de forma gostosa e aqui compartilho com vocês.
Iniciei as atividades lendo o livro que conta a sensível história da deusa Ombela (Chuva em Umbundu) que fazia chover ao chorar – não vale contar mais porque ler o livro é essencial. As crianças se envolveram com o conto e adoraram perceber alguns elementos da história como a sabedoria dos velhos e a ausência do bem e do mal, fiquei muito feliz com esses olhares que é fruto de trabalhos realizados durante todo não. 


 

Em seguida, pensando nas gotas da chuva montamos um cartaz cheios de gotas e refletimos que quando a chuva cai no solo ou até mesmo em um rio ela segue um curso, ela corre... com isso fizemos pinturas com escovas de dentes – aquelas velhinhas que iriam para o lixo - reproduzindo esse caminho da água. Apropriados do curso e das gotas da água partimos para um pouco de ciências e descobrimos que existe o ciclo da água através de imagens. Vimos o caminho que a chuva faz e percebemos que as gotas de chuva estavam presentes no caminho também, então brincamos com carimbos de gotas e enchemos as folhas de gotas de chuva.



 

Depois dialogamos todo conhecimento adquirido com uma técnica de pintura gotejar (dripping). Apreciamos algumas obras de artes com essa técnica e conhecemos um pouco de como o artista plástico Pollok pintava, assim fizemos obras de artes inspiradas nas lágrimas e Ombela.

 

 

Em seguida resolvemos partir para a prática e perceber como as chuvas se formam de verdade, nós tornamos cientistas e experimentamos tudo. Inicialmente observamos a água fervendo e todos puderam concluir que a água aquecida vira vapor, em seguida colocamos a água numa garrafa pet e fechamos, as paredes da garrafa se encheram de gotículas de água oriunda do vapor. Observamos bem e após todo mundo ganhou um sacolé de água congelada e assim perceberam que o gelo vira água. Lógico que depois de tantas descobertas e experimentos tivemos que fazer desenhos dos registros e treinamos nosso grafismo.

 

 

 

 

E quem se perguntar se incorporamos a matemática nisso tudo eu digo que sim, nós construímos um gráfico do tempo, no qual todo dia observamos e registramos como estava o tempo.


E para fechar com muita festa realizamos uma grande chuva de tinta no tecido que virou nosso painel. Após todos os alunos vivenciarem como as chuvas se formavam e travarem um diálogo sensível com as lágrimas de Ombela construíram um móbile de chuva para que os responsáveis ,quando passassem pela exposição, chegassem bem pertinho dessa deusa. Quando perguntamos aos nossos guias da exposição como eles falariam para os pais sobre a chuva eles disseram que iram explicar a partir a história de Ombela: "Porque essa era mais bonita!!!", mesmo sabendo a explicação científica para chuva. E assim descobrimos, experimentamos e escolhemos.

 


 


 



23 de novembro de 2014

É POSSÍVEL APLICAR A LEI 10.639/03

Findando-se o mês da consciência negra não poderia deixar de apresentar um colégio no bairro do Engenho Novo, Zona Norte do RJ. A escola traz em sua metodologia a pedagogia de projetos o que leva à dialogia com interdisciplinaridade de forma intensa, propiciando a aplicação da lei 10.639/03 em seu cotidiano. O nome desse espaço que nos prova que é possível ensinar história e cultura africana e afro-brasileira é Colégio AIACOM.

A escola passa por cima das principais dificuldades para a aplicação que é o despreparo e ausência de conhecimento sobre o negro no Brasil e sobre a África oferecendo formação todos os anos sobre a temática, as vezes uma vez as vezes várias vezes ao ano dependendo de como o corpo de funcionários está lançando olhares à temática. Paralelo a isso os coordenadores fazem reuniões semanais de planejamento com a equipe, o que dá para direcionar possíveis dúvidas sobre a aplicabilidade de alguns conceitos. A equipe técnica, composta por coordenadores e direção, faz reunião quinzenalmente e havendo necessidade semanalmente. Outro aspecto que deve ser colocado aqui que facilita o debate de formação dos professores é que a gestão está a um passo de se tornar uma gestão democrática, pois vem buscando a participação de todos – alunos, responsáveis, professores, equipe técnica e equipe administrativa. Os funcionários podem se colocar sempre e os espaços de avaliação institucional são realmente levados a sério.

Bem, resolvi falar dessa instituição e compartilhá-la com vocês porque todo ano no mês de novembro eles trazem suas atividades para o público, sendo mais que uma comemoração e sim uma culminância dialógica com a comunidade. Para que os conhecimentos ultrapassem os muros da escola. Nesse ano tiveram 4 semanas: Semana do Festival de Cinema Negro, Semana da Sonoridade Étnica, Semana da Consciência Negra, Semana da Roda Dialógica de Africanidades.

Nessa segunda-feira, dia 24 de novembro, acontece a última semana de programações, a semana “Roda Dialógica de Africanidades”, onde terá o grande João Costa Baptista falando sobre os quilombos brasileiros. Valorando nossas lutas e forças. Temos também dia 28 de novembro a fortaleza das Meninas Black Power. Imperdível!!!!! Tanto conhecer a escola como participar desses dois dias.



Vale também curtir a página no FACEBOOK: https://www.facebook.com/aiacomsic?fref=ts e conhecer mais sobre a instituição no site: http://www.aiacom.org.br/